Novamente de volta ao Rio, agora em casa própria na Urca, Sérgio lança seu novo LP, o oitavo da carreira, com arranjos magistrais de Theo de Barros para as músicas Mundo Velho, Arrebentação (que dá título ao disco), Conversação de Paz, a mais tocada no rádio, juntamente com Jogo de Dados, e outras. Em todas elas, mesmo as mais líricas o autor não abre mão da denúncia social. Sai pela gravadora nacional Equipe, de Osvaldo Cadaxo.

A partir da apreensão de seu compacto Aleluia, retirado das lojas de São Paulo, por exaltar Che Guevara, e pelo corte feito em seu filme e em sua letra Dia da Graça, pelas freqüentes intimações, percebe que estaria na mira da censura, em seus trabalhos futuros. Seu nome já embaraça a auto-censura das gravadoras, rádios e Tvs, que dificultam sua divulgação ou contratação. Seu sucesso alcançado com a quebra do violão, lembrado a todo instante e em todas as entrevistas, durante anos a fio, recheadas de declarações ousadas contra o sistema, tanto de arrecadação do direito autoral quanto político, passando a ser um dos arautos da resistência, ao mesmo tempo o afasta gradativamente da mídia. Ao ponto da execução de suas músicas se tornar proibida definitivamente pela censura, no radio e na TV.

Aproveita a vazante para receber aulas com Guerra Peixe, revisando seu conhecimento de contraponto, harmonia e orquestração. Com Ruffo Herrera faz curso de música aleatória e dodecafônica. Faz aula de canto com Maria Helena Betsi tornando-se um cantor mais vigoroso. Durante os anos em que desenvolve este processo, consegue produzir, além dos shows com universitários por todo pais, que o mantêm em dia com a sobrevivência, o seguinte:

Trilha sonora do filme Guerra dos Pelados de Silvio Back.

Show Conversação de Paz, lançado no Teatro Casa Grande. Um mês depois estreia no Teatro Opinião. Viaja com o show pelo Brasil. Direção de Renato Rocha. Cenário de Carmélio Cruz.

Show "OPÇÃO" com Sidney Miller e Marcos Venício, com convidados ilustres da MPB, no Teatro Opinião em média temporada.

Sai um LP pela Abril Cultural, série MPB, vendido em bancas de jornal.

Faz a trilha sonora do filme Terra dos Brasis de Maurice Capovilla.

Cria e lança em sociedade com O Pasquim o "Disco de Bolso", como encarte do jornal. Revista mensal de curta duração. Saem duas edições, logo esgotadas nas bancas de jornal. No primeiro, traz Tom como cantor da sua composição feita para o evento: Águas de Março, de um lado. Do outro o desconhecido João Bosco interpretando dele e Aldir Blanc, Agnus Sei. No segundo disco Caetano Veloso com "A volta da asa branca", e o novato Raimundo Fagner interpretando dele e Belchior "Velas do Mucuripe". Com o fechamento do Pasquim, não retoma mais o projeto.

Aos 40 anos, é agraciado no fim do ano, como presente de Natal, com o nascimento de sua primeira filha - Adriana. Sérgio ganha vida nova.

1973
Cria um grupo com os músicos Piri Reis, Cassio Tucunduva, Fred Martins, Franklim da Flauta, e Paulinho Camafeu. Ensaia em seu estúdio no anexo da casa e vem a gravar outro LP pela Continental, reunindo doze novas composições, dentre as quais seus sucessos cantados pelos estudantes em suas andanças pelo Brasil, tais como Calabouço (inspirado em Edson Luis, estudante assassinado pelos militares no restaurante Calabouço), Tocaia (em homenagem a Lamarca, grande herói da guerrilha), Semente, Sina de Lampião, Canto Americano e outras alem de Vou Renovar,( uma sátira do momento político) com a qual passa a encerrar seus shows fazendo a platéia cantar o refrão, e ao final aplaudi-lo delirantemente. Empenha-se nos arranjos, com achados rítmicos explorando na letra e na melodia uma elaboração sofisticada, com indicações de novos caminhos para a música brasileira. A critica exalta seu trabalho, e algumas consideraram este o seu melhor disco. Caulos faz a capa e com Sérgio são intimados pelo DOPS a prestar esclarecimentos. Querem saber porquê Sérgio aparece na capa com a boca cortada, e o que pretende dizer com o refrão "cala a boca, moço" em sua música Calabouço. Ambos se defendem com explicações "intelectualizadas", como é de costume dos artistas intimados, driblando a ignorância dos censores. O disco continua circulando mas sua execução é proibida pela censura.
Sua casa na Urca passa a ser popular entre os artistas que a freqüentam.

Cria a firma ZEM (Zelão editora musical) de sociedade com Otto Engel e seu irmão Dib, para produzirem a " Noite do Espantalho" com financiamento da Embrafilme. É encenado em Nova Jerusalém, o maior teatro ao ar livre do mundo. Revela Alceu Valença e Geraldo Azevedo como atores e cantores. Rejane Medeiros, José Pimentel, Gilson de Moura, Diva Pacheco, Emanoel Cavalcante formam o elenco.

A censura, determinada a proibi-lo na sua totalidade, volta atrás, diante do convite oficial da Quinzena do Realizador, em Cannes, escolhendo o filme para representar o Brasil. A sua proibição provocaria um escândalo internacional. É liberado sem cortes.

A originalidade e exuberância do filme, criou uma opinião da crítica brasileira, controvertida.

Prêmios de melhor filme, melhor música, melhor fotografia,(Dib Lutfi) melhor ator coadjuvante,(Emanuel Cavalcante) no Primeiro Festival do Cinema Brasileiro em Belém. Prêmio de melhor música no festival de Cinema Jovem em Toulon, França. Apresentação na Vienale, Viena, Áustria (75). Apresentação no 24º Fest. de Cinema de Melbourne, Austrália, (75). Apresentação no 22º Fest. de Cinema de Sidney, Austrália (75).

Sergio acompanha o filme no festival de Cannes, convidado pela Quinzena do Realizador (74). Segue para os EUA para o festival de Nova York, convidado com outros 14 filmes selecionados do mundo inteiro como os melhores do ano.
Na sua volta, é procurado por Macalé, Chico Buarque e Xico Chaves para, juntos, fundarem uma associação de classe. Convocam a categoria que adere em massa e é criada a Sombras, sem fins lucrativos, com a finalidade de botar a boca no trombone contra a roubalheira do direito autoral, sensibilizando de tal forma o governo, que em breve se criam o SDDA e o ECAD. Com a primeira etapa vencida, ao se partir para as próximas, a sede da Sombras é lambida pelas labaredas do trágico incêndio do MAM.

1974
Sai pela Continental o LP A Noite do Espantalho.

Nasce sua filha Marina, anunciando a chegada da primavera. Volta a compor e com o titulo de uma nova canção "Ponto de Partida", prepara um novo show para percorrer o Brasil.

1975/76
Guarnieri, empolgado com a canção Ponto de Partida convida Sérgio a trabalhar com ele em sua nova peça.

Fernando Peixoto dirige o elenco de Oton Bastos, Guarnieri,Sergio Ricardo, Martha Overbeck e Sônia Loureiro. Sérgio usa sua musica Ponto de Partida, musica as letras de Guarnieri, restantes e completa a trilha que fica a cargo do Grupo Maria Déia executar. Casa cheia todas as noites.

No mesmo ano sai um Compacto Duplo (Marcos Pereira) com a trilha da peça.

A RCA lança o LP Sérgio Ricardo, série MPB Espetacular, produzido por Aloísio de Oliveira, inconformado com a absoluta ausência de sua voz no rádio.

Sergio é motivado a filmar a história de Zelão, personagem de sua música. Compra um apartamento no bairro do Vidigal, para montar seu atelier , e de quebra um barraco na favela . Com a intenção de conviver com os favelados, para abarrotar de verossimilhança a história que irá compor, penetra lentamente por aquele universo, já conhecido através de seus dois primeiros filmes. Ajudado por Eni Moreira, consegue envolver Sobral Pinto, que, gratuitamente vem defender a causa dos favelados, pondo um ponto final numa dramática manobra engendrada para remove-los do morro.

Os favelados começam a reconstruir suas casas, agora de posse do terreno, conquistada depois da fracassada tentativa do governo . Sérgio convoca seus amigos Chico Buarque, Gonzaguinha, Carlinhos Vergueiro, MPB 4 e outros para a realização do show Tijolo por Tijolo, na concha acústica da UERJ, a fim de angariar fundos para reerguer as casas dos moradores do Vidigal.

SR propõe novo show a Thiago de Mello (recém chegado do exílio). Thiago declama seus poemas e Sérgio canta suas canções ao piano e violão, dirigidos por Flavio Rangel. "Faz Escuro Mas Eu Canto". Intimados a comparecer ao departamento de censura da Policia Federal para tentar liberar o espetáculo que havia sido proibido, convencem os censores, mas são vetados quatro poemas e duas canções. Lançado no Rio, com temporada de casa lotada no Teatro Opinião, sai em turnê pelo Brasil. Fica uma grande amizade.

1979
Maurício Tapajós, companheiro e amigo de Sergio produz para a Continental seu novo LP com suas novas canções. Não alimentam ilusões de sucesso. Vale pelo registro de No Vidigal, Do Lago à cachoeira, Contra a Maré, Lá vem Pedra, Tarja Cravada, Sexta feira-13, Canto Vadio e Ponto de Partida, além de Toada de Ternura (para o poema de Thiago de Mello) e uma releitura de O Nosso Olhar.

Mora no barraco por mais de um ano, durante o qual escreve a peça Bandeira de Retalhos. É convidado por Chico Buarque a integrar sua comitiva em visita a Cuba, para participarem do festival de música de Varadero. São dois shows em Varadero e um em Havana. Ele, Chico e os demais companheiros, Carlinhos Vergueiro, Nara Leão, MPB-4 e João Bosco encerram o show cantando Corisco de Sérgio.

É escolhido para musicar todo o livro Flicts de Ziraldo. O LP sai pela Polygram, com arranjos do próprio Sérgio, interpretado pelo MPB-4 e Quarteto em Si. Para espanto de Sérgio Cabral, produtor do disco, a gravadora não se empenha na promoção e divulgação, e mais uma vez, não é executado no rádio ou encenado na TV. O poeta Carlos Drummond de Andrade, em sua coluna do JB tece elogios a SR por seu trabalho musical para o livro de Ziraldo e tornam-se amigos. O poeta lhe envia seu único cordel, "Estória de João Joana", inspirado em fato verídico , para que ele o musicasse.

Entrega o barraco para a associação dos moradores fazer sua sede.

Em seu apartamento no Vidigal, trabalha na composição da Estória de João-Joana. Com a participação de Bororó, Lui Coimbra, Paulinho "Briga" e Chacal, concluem os ensaios do cordel e vão gravar em oito canais, uma amostra da composição. Obtém a aprovação, sem restrição, de seu parceiro Drummond.

Realiza, a convite de João Madeira, o curta metragem "Balanço do Vidigal"para a cinemateca da Shell, para com seus honorários pagar o trabalho de orquestração de J.Joana feita por Radamés Gnatalli.

Logo depois, Madeira o convida para dirigir outro curta, "Dançando Villa-Lobos" com o grupo Nós da Dança. Durante as filmagens, o grupo se interessa em montar o espetáculo João-Joana, que é encenado no teatro João Caetano.

É feita uma gravação com os musicos de Sergio e a orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, para o LP independente, com composições, arranjos e voz de Sergio, orquestração de Radamés e produção de Homero Ferreira. Ao ouvir a gravação, Drummond envia uma carta emocionada para Sérgio.











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